sonhos compartilhados na sala de ensaio, vida desperta em cena
29.03.2026. lembranças da Residência Artística Teatro Memória e Relatório Figueiredo, realizada pelo Teatro Popular de Ilhéus em Março de 2026. Ilhéus, Litoral Sul da Bahia dos Mistérios. Texto e registros por Mariane Lobo
Voltei. Tenho o corpo repleto de imagens, sementes do porvir ainda pousando como pedrinhas em cada ponta de osso, em cada esquina, dobra, articulação. Voltei com a garganta ardendo por novos sopros. O coração quente por estar na companhia de “aventureiros irmanados”, como chamamos por aqui. Sou artista criada na coletividade e no teatro de grupo, e desde entrei neste barco alado vivo todos os dias aprendizados que me enraizam neste mundo de guerra.
A residência artística Teatro, Memória e Relatório Figueiredo foi um desses adventos que ampliam brutalmente o horizonte. Me senti em casa, honrada por participar tão de dentro de um processo artístico do Teatro Popular de Ilhéus e pela possibilidade de dialogar sobre temas que investigo enquanto artista-pesquisadora. Foram cinco dias de trabalho intenso na Escola Agrícola e Comunitária Margarida Alves (EACMA), espaço de resistência dedicada às lutas camponesas no sul da Bahia, lutas travadas por mulheres como dona Janira, fundadora da Escola e nossa anfitriã.


O estudo do Relatório Figueiredo, documento que denunciou as ações de genocídio do Estado contra os povos indígenas do Brasil, e o mergulho na pesquisa do TPI sobre a luta dos povos indígenas de Olivença foram os insumos para as criações em cena e mais, foram presentes inestimáveis de um grupo que há 30 anos afirma o poder de transformação social do teatro, grande arena de discussão, conflito, resolução, invenção, vida. Em paralelo à pesquisa artística, conversamos sobre desafios, estratégias e caminhos para manter um grupo de teatro funcionando, seja numa casa, numa lona de circo ou voando entre um paradeiro e o próximo.




Nesta aventura fui nutrida pela generosidade do mestre Romualdo desde as histórias contadas, até a direção em cena e a moqueca fantástica da sexta-feira, horas antes da estreia da nossa mostra cênica. Fui cuidada por Tânia desde a acolhida até aos bons lembretes de guerrilheira “artista não pode se expor sozinho!”, “mergulhem como pesquisadores!”. E conheci o fazer de artistas que assim como eu, atenderam ao chamado do TPI, cada um e cada uma que, com suas próprias paixões, realidades e horizontes, convergiram no trabalho coletivo feito na sala de ensaio, lugar sagrado de criação, como ouvi tantas vezes.




Realizar é sempre uma fonte de aprendizado e foi o teatro quem me ensinou isso. E teatro é fazer junto, uma prática vital se quisermos “adiar o fim do mundo” combatendo o sistema vigente que quer nos isolar o tempo inteiro. Essa residência foi uma dessas brechas incandescentes onde revolvemos a terra e plantamos sementes com o desejo de fazer brotar, através da arte, novos imaginários, outros futuros.

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