lobamariane:

Na esquina do correio

Meu bem,

Recebe essa carta como um beijo de adeus. Não vamos mais voltar a este ponto.

Construíram um projeto de abismo e mergulhamos fundo pra subir em piruetas, saltos coloridos, rebolados vertiginosos, manobras perigosas, criações audaciosas.

Acendemos canções que nos guiam até hoje na noite escura que parece gestar para sempre o Futuro. É lindo, mas o que me angustia às vezes é o fato de que as estrelas estão indo embora, uma a uma. Quanto tempo ainda temos?

Te confesso que já me perdi. Tantas estradas abertas, tantas ruas sem saída. Já me perdi, mas não quero sumir, por isso te escrevo.

Eu nem tenho mais pra onde voltar. O chão retirado dos meus pés hoje pertence a um rico qualquer. Por isso fugi com quem sabia construir barcos e desde então vejo o fim do mundo no retrovisor.

Não existe “pra frente”. Rumar é tão apenas e simplesmente equilibrar a própria carne no ar com a força da Vida. Assim eu arrisco.

Não lamento, nem sinto tristeza. Reconhecer esse abismo no qual dançamos é como silenciar para ouvir o coração batendo. Canções ainda brilham, só precisamos deixar o olho se acostumar com a visão.

Quando a gente se cruzar novamente eu não serei mais essa que te escreve, ainda arrebatada pelas descobertas de uma viagem recente. Também te encontrarei outra e isso me excita. Ainda assim não quero perder esse instante em que me sinto besta e acesa como uma árvore de natal, a mão tão solta, as palavras impacientes querendo derramar em meio ao suor do raiar do verão. Se tudo der certo, até o final da estação te mando uma foto com a pele mais bronzeada, um texto e outro beijo no verso.

Agora preciso partir, pois não tenho nas asas a mesma força dos beija-flores, vem vindo uma corrente e eu preciso aproveitar a deixa.

Se quiser me escrever de volta, meu endereço é o meu desejo. Vou mantê-lo aceso e brilhando pra você enxergar.

Com amor,

Sua encruza em brasa.

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