O que sustentará o trabalho de agentes culturais, artistas e fazedores de Cultura no Litoral Sul da Bahia?
06.02.2025. O que sustentará o trabalho de agentes culturais, artistas e fazedores de Cultura no Litoral Sul da Bahia? Uruçuca, Bahia. Reflexões sobre o ciclo 2024 do Fórum Permanente de Cultura de Uruçuca e desejos para o porvir, por Mariane Lobo.
Sou uma artista nascida em Salvador e foi nas bandas de lá que ouvi o chamado dessa minha natureza, foi no mar de lá que cultivei em mim o desejo intrínseco de criar realidades e desde lá, vivo os aprendizados. Mas o sopro da Ventura me moveu pra longe da Soterópolis e hoje é aqui no Litoral Sul, terra de nascimento da Guilda Anansi, que tenho trilhado o caminho de me formar como agente cultural, cidadã capaz de compreender os deveres e demandar os direitos que me cabem, o mesmo lugar onde aprendi que “comunidade é tudo de bom” e que a sociedade organizada pode sim desorganizar estruturas coloniais, coronelistas, racistas, misóginas e retrógradas, em passos pequenos, constantes e persistentes. Lá ou aqui, de certa forma me sinto em casa, pois é tudo terra Tupinambá – e isso eu também aprendi no vento sul.
O que o Fórum Permanente de Cultura tem para contar sobre 2024?
Honrando a Memória e a História, escrevo esse relato das experiências vividas ao longo do árduo ano de 2024 no âmbito do Fórum Permanente de Cultura de Uruçuca, iniciativa da sociedade civil para o fortalecimento de políticas públicas e agentes de cultura e arte que revolvem o chão deste município.
Esse foi um ano e tanto para o Fórum. De Janeiro a Dezembro realizamos 12 encontros, entre reuniões mensais e extraordinárias, a sua maioria ocorridas no Barracão Comunitário do Bairro Novo (distrito de Serra Grande) e todas transmitidas online via canal do Fórum no Telegram. Teve reunião cheia, teve reunião vazia, o movimento certamente aumentou nos momentos em que a pauta foi o processo de inscrição em editais. A captação de recursos mobiliza mesmo e como não, se uma das nossas lutas é pela dignidade e o reconhecimento geral de que nós somos também uma classe trabalhadora como qualquer outra?


Secretariando nas tardes de reunião do Fórum Permanente de Cultura de Uruçuca
O trabalho cultural é para além dos editais
Ainda que nestas horas o burburinho de “quando sai o edital? Quando vai cair o recurso?” tenha sido grande, o som não abafou o desejo de que articulações como a do Fórum Permanente de Cultura continuem, como pude registrar atuando na secretaria desta ainda jovem e audaciosa organização em diversas reuniões, especialmente durante a Escuta Pública do Plano Anual de Aplicação dos Recursos (PAAR), passo obrigatório para a gestão pública na implementação da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). O encontro aconteceu na sede do município, reunindo agentes culturais, artistas e fazedores de cultura de diversas localidades. Quem viveu sabe das aventuras que hoje contamos aos risos.
O “Permanente” no nome não é à toa. O trabalho de uma pessoa, grupo, coletivo, associação ou instituição de Cultura vai além, muito além de qualquer edital. É sobre cultivo, e esse tipo de trabalho não para nunca, caminha junto com o tempo, respeitando as tempestades, cuidando da terra para que ela seja fértil, removendo ervas daninhas e removendo o cimento que não deixa o solo respirar, sabendo a hora de estar ao sol, sabendo aproveitar a oportunidade que cada lua oferece, sabendo a hora de plantar e a hora de colher.
Uruçuca dá desafios imensos, um deles é esse, a geografia do território e sua atual organização social. “Por que as reuniões não acontecem na sede?” escutamos mais de uma vez. O deslocamento entre distrito-sede foi uma matemática que tentamos resolver de diversas formas, solicitando apoio à gestão municipal com ônibus, reunindo agentes culturais que tinham carro e disponibilidade de fazer o percurso, e por aí vai. As transmissões virtuais foram fundamentais na manutenção dessa conexão que, se não foi suficiente, deixou o canal aberto para trocas e reportes, o que nos fez entender um pouquinho mais sobre a realidade de cada lugar.
Eleições municipais e cultura em debate
Neste ano marcado pelas eleições municipais, o Fórum convidou candidatas e candidatos ao Executivo e Legislativo para uma conversa aberta. Mais do que ouvir promessas, as Sabatinas da Cultura foram momentos de abrir espaço para a compreensão de que a Cultura deve ser pauta central dentro do debate político pois se trata de um direito fundamental garantido pela Constituição Federal nos Artigos 215 e 216, artigos que, como diz Amanda, “a gente devia tatuar no braço”.
Pude participar da escrita da Carta Compromisso com a Cultura de Uruçuca, elaborada pelo Fórum e que, embora tenha sido assinada apenas por uma candidata, representou uma oportunidade maravilhosa de exercício da cidadania cultural através da compreensão das necessidades deste território, listadas em ações basilares para que a cultura permaneça viva e brotando por aqui.
O que seria de nós sem as mestras e mestres do Sul da Bahia?
Além das reuniões internas, o Fórum participou de atividades e eventos que foram também essenciais na caminhada de 2024. Aprendemos muito com Mestras e Mestres da Cultura do Sul da Bahia como Lula Dantas, Professora Áurea e José Carlos Ngão e contamos com a orientação contínua da nossa Representante Territorial do Litoral Sul, Mestra Janete Lainha, sempre presente quando precisávamos de auxílio. Os encontros itinerantes do Fórum de Agentes, Empreendedores e Gestores Culturais do Litoral Sul (FAEG-Sul) foram tão inspiradores quanto mobilizadores, pois ensinaram muito sobre resistência.

Escuta Pública para criação do Plano Anual de Aplicação dos Recursos (PAAR) pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB)
Contamos também com o cuidado e atenção de Rosa Rasuck, fantástica artista visual e parecerista muito bem afiada pela experiência no tempo, agente cultural notória em diversos pontos do Brasil e uma das co-criadoras do Fórum Permanente de Cultura de Uruçuca. Eu, como integrante do coletivo de artistas Guilda Anansi, aprendi e sei da importância de honrar aquelas e aqueles que trilham o caminho a mais tempo, e aqui deixo meu salve e desejo de vida longa, pois ainda temos muitas batalhas a travar, e ter a sabedoria como companhia nas trincheiras é valioso demais.

Comitiva do Fórum Permanente de Cultura de Uruçuca no Encontro Territorial de Cultura (2024) na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)
Cultivando o solo desejando junto o que vem por aí
2025 já se apresenta em seus desafios e chamados às aventuras de um novo ciclo de atividades. Imagino e desejo que o fortalecimento dos laços criados e a boa chegança de quem quer se juntar à luta pela Cultura serão bons ingredientes para continuarmos o trabalho de cuidar dessa terra tão fértil que precisa ser salvaguardada para garantirmos um futuro que tenha a diversidade das nossas cores, nossos costumes, nossos saberes. E um fórum é o lugar perfeito para fazer essa força coletiva expandir.
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